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Vida: não há volta

Se pudesse encontrar comigo aos dez anos de idade, diria pra mim mesmo pra aproveitar os momentos ao lado dos primos, pra aproveitar a companhia dos irmãos. Diria pra ter coragem de chorar na frente deles, pra sorrir mais com eles. Pra tentar ser menos competitivo. Pra ter coragem de entrar naquela velha construção. Pra brincar mais no fim de tarde. Pra pedir ao vovô um pouco mais de coca-cola. Diria pra não ter medo de dormir sozinho.

Pra gastar os primeiros trocados com brinquedos. Na verdade, diria pra não ter pressa em ganhar os primeiros trocados. Diria pra mim mesmo pra aceitar o fato de não ter um pai. E viver em paz com isso. Diria pra não chorar escondido. Pra não mentir. Pra não fugir da surra da mamãe. Diria pra chorar depois da surra.

Se pudesse encontrar comigo aos doze anos, diria pra conversar com mamãe. Pra estudar menos na escola e fazer mais amizades, brincar no recreio. Diria pra aprender a dizer não. Diria pra gastar dinheiro com balas e chicletes. Diria pra agradar mais aos colegas do que aos professores. Diria pra ser menos adulto, pra aproveitar a infância irresponsável e descompromissada.

Se pudesse falar comigo aos treze anos, diria pra não sofrer por ela. Insistiria para que vivesse como uma criança e deixasse a maturidade para mais tarde. Diria pra não pensar no futuro. Pra não pensar em posses, em sair de casa.

Se pudesse falar comigo quando ainda era uma criança, diria pra não ter pressa em crescer, pra viver o máximo debaixo das asas protetoras do lar. Diria pra não sair de casa. Diria pra ter mais medo do que coragem.

Diria pra beijar vovó, que a hora dela estava chegando sem avisar. Diria pra não segurar o choro, pra não se envergonhar das lágrimas. Diria pra não esperar o vovô pedir perdão.

Se pudesse encontrar comigo, diria pra esperar mais um pouco. Diria que não era hora de ser adulto. Diria pra ser irresponsável enquanto a idade permitia e a sociedade entendia. Diria pra não ter medo de errar.


Ah, se eu pudesse. Se eu pudesse emprestar a experiência de agora ao jovem de outrora. Experiência de saber que a ausência do medo não representa coragem. Que ser forte é assumir fraquezas. Que ser adulto é um saco. Que ter responsabilidades te amarra, te consome. Que a hora de chorar escondido é agora. Que chegou a hora de guardar segredos, de não mostrar deficiências.

Se pudesse emprestar um pouco de experiência àquele jovem. Ele saberia que era preciso pensar um pouco mais antes de proferir palavras afiadas. Pensar antes de decidir se aventurar ao mundo.

Ei, psiu, garoto. Me ouve!

By Jeisael Marx
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