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PODERÍAMOS DIZER “SAÚDE” AO ESPIRRAR?


Em São Luís, referência da área no Maranhão, talvez não
(por Marcos Baeta Mondego)

“Segundo o Dicionário Brasileiro Globo (dos autores Francisco Fernandes, Celso Pedro Luft e Marques Guimarães), edição de 1998, a palavra socorro significa “auxílio que se presta a alguém, amparo, proteção, ajuda”. Já emergência quer dizer “ocorrência, incidente, aparecimento”. E urgência é “pressa, necessidade imediata, que não se pode adiar ou transferir, indispensável”. Por isso, os pronto-socorros acompanham em sua denominação a composição urgência-emergência ou ocorrência imediata.

Acostumamos a ler, ver e ouvir que se automedicar não é recomendável. A orientação é imediatamente procurar o médico especialista ou pelo menos um clínico geral antes de tomar quaisquer medicamentos. Mas, para isso, tudo deveria funcionar a contento nos hospitais da cidade. Tanto na rede pública como na particular. Na privada (sem trocadilhos) a coisa é menos mal. O sacrifício no atendimento é menor, apesar das filas e esperas. No final do ano passado fiquei quase uma hora com o meu filho em um hospital particular de urgência-emergência esperando pelos médicos pediatra e ortopedista. O segundo nem de plantão estava.

Na rede pública municipal e estadual a coisa é lamentável e constrangedor. O pobre do necessitado chega para ser prontamente atendido e sai com outro problema de saúde. A zanga é tanta que leva ao estresse, que também leva à depressão. Um absurdo! Tudo porque os pronto-atendimentos ou hospitais públicos de urgência-emergência da cidade não fazem jus à denominação que tem.

De tanto esperar, o atendimento ao paciente deixa de ser imediato, indispensável, inadiável ou intransferível. Torna-se uma consulta comum, de rotina, pois não há médicos especialistas de plantão para a urgência-emergência. E há tempos sabemos que todo prefeito e secretário de saúde que assume, fala sempre a mesma coisa: o fluxo de procura é grande, acima do previsível! Aproveito a deixa: por isso há necessidade permanente da vigilância 24 horas por dia, todo santo dia. Isso é básico, incipiente e não precisa ser médico entendido para observá-la, mantê-la e cobrá-la. Porém, carece ser muito inteligente para resolver esse mal que assola o povo. Tem que ser doutor (com doutorado!) para tratá-la.

Nos últimos anos, a capital maranhense teve 2 prefeitos médicos – especialistas em oftalmologia e pneumologia – que não se cansaram de dar as mesmas explicações quando eram “lembrados” sobre as fraquezas da saúde humana na cidade. Afirmavam, por exemplo, que as constantes vindas de pacientes das cidades do interior foram sempre causadoras dos congestionamentos nos corredores dos hospitais públicos de urgência-emergência locais. Sendo assim, melhor todos ficarem apreensivos, pois o atual administrador da capital não é especialista, nada sabe de medicina, a não ser de cuidar da própria saúde. E não devemos esquecer que, nesse setor, São Luís é referência para o Maranhão assim como São Paulo é para o Brasil.

Entra e sai prefeito, troca-se ou mantêm-se os secretários, mudam-se os médicos diretores de hospitais e a situação da saúde pública continua a mesma: doentia! No entanto, o ministro da saúde do presidente FHC e atual governador de São Paulo, José Serra informou – há alguns anos quando esteve em São Luís para a reinauguração do Hospital Geral Tarquínio Lopes – que o Sistema Único de Saúde repassa a verba aos municípios de acordo com os atendimentos realizados, necessidades médicas e planejamentos. Ou seja: depende única e exclusivamente da competência da autoridade responsável ou do trabalho do comandante da área.

Com a afirmativa, entendi que o ministro repassaria aos entendidos burocráticos médicos o diploma de competência ou não de quem assumiria a direção do HG com responsabilidade ou não. Para ser bem claro, quanto mais atendimentos, maior o repasse de verba. Então, melhor para o governador da época, para o secretário de saúde e para a direção da casa. E para todos os municípios do estado, idem. Nos dias atuais, creio que a regra de repasse da “grana” do SUS não tenha mudado com a troca de governo – até porque o governo do PT-PMDB nada mais é do que o prolongamento do governo do PSDB-DEM.

Dá para entender a demora no atendimento de um pronto-socorro de urgência-emergência? Porque filas enormes, esperas, filas e filas? Porque a morosidade na troca dos plantonistas e tanto tempo destinado à alimentação dos médicos, técnicos e funcionários de apoio? Porque tanta burocracia, papéis, entra aqui e sai ali, se a ocorrência tem que ser imediata? Porque não há planos B e C no caso da falta de funcionários? Porque há pouca gente para atender à demanda, principalmente nos fins-de-semana quando a situação é mais crítica? Porque misturar os atendimentos das crianças aos dos idosos, aos dos portadores de doenças contagiosas e até mesmos aos dos presos de justiça? Já pensaram uma invasão de algum grupo de meliantes armado no hospital para o resgate ou vingança a algum detento-paciente? Olha que não é difícil acontecer…

E voltando à fala do ministro e às desculpas esfarrapadas locais, também é recorrente nos pátios dos “socorrões” da capital o engarrafamento das ambulâncias vindas do interior do estado com os seus pacientes imediatos. Com a demora no atendimento, o inferno se torna ainda mais caótico, pois é gente gritando para todo o canto, em todos os sotaques, de todas as regiões maranhenses.

Nesse fim-de-semana, acompanhei o caso de um paciente que pulou de galho em galho do animalesco atendimento público hospitalar de urgência-emergência da cidade, em busca de ajuda médica para o seu problema de saúde. Ele acabou desistindo do amparo por entender que sairia ainda pior, em função dos fatos que presenciara nos hospitais e clínicas por onde passou.

No PAM da Cidade Operária, de responsabilidade do Governo do Estado, existe a placa “urgência”, porém não há médicos de plantão todo o tempo. Tem equipamento de raio X, mas não há plantonista aos sábados e domingos. Ser atendido no intervalo do almoço, jantar ou de madrugada, nem pensar! Ou seja: o paciente tem que pensar bem na hora de se acidentar. E tem que ter estômago.

No “Socorrão II”, da Vila Santa Efigênia, a coisa é mais séria! A demanda é grande e o atendimento, precário. Ser atendido por um especialista ortopédico de urgência é como ganhar na loteria. Sorte sua se for rápido e se você der de cara com um médico educado. Pelo menos assim a motivação para a recuperação será melhor e maior. O tratamento dispensado por todos é digno de juízo final. É expressão emburrada nos quatro cantos e gente tirando os seus da reta em função dos deslizes encontrados.

Segundo o cidadão-paciente fora de hora, teve o caso de uma senhora, aproximadamente de 70 anos, que chegou carregada nos braços de um rapaz e ali ficou, pois era intervalo do almoço, troca de plantão médico e não tinha funcionário para preencher a ficha de triagem. E dentre muitos, também teve o de uma criança, aparentemente de 4 anos de idade, que chegou perdendo muito sangue, carregada a pé pelos parentes, com um grande e profundo corte na coxa esquerda. O que fizeram todos? Tiveram que aguardar, por não ter outra opção de urgência-emergência médica. E talvez, nem como se deslocar em busca de novo socorro…

De longe e como espectador, concluo que esses são fatos logicamente recorrentes na saúde local. Casos talvez da época em que Gardênia Gonçalves era prefeita de São Luís e João Castelo, governador do Maranhão. E que, após tanto tempo, ao longo dos anos, só foram mudando os protagonistas, entretanto o filme continua o mesmo, infelizmente.

Fica a indagação: se os nossos pronto-socorros não estão preparados para atender à demanda dos ocorrentes casos habituais, que diria de surto da Gripe A. E ainda: como evitar ser infeccionado por qualquer gripe ou outra doença, em ambientes onde existem grande fluxo e concentração de pessoas acometidas de males moribundos, além de um monte de vírus e bactérias espalhado por toda a extensão do prédio hospitalar? Então, porque a demora no atendimento? Ainda bem que o vírus da “gripe suína” adora o frio e não o calor que faz por estas bandas.

Recentemente, no apagar das luzes da sua administração, o ex-prefeito de São Luís Tadeu Palácio inaugurou o hospital “Socorrinho do Cohatrac”, específico para pequenas intervenções de pronto-atendimento. Também garantiu que iria inaugurar em outros bairros pelo menos mais dois hospitais do gênero, dentre tantos prometidos, na tentativa de desafogar a busca desenfreada dos acidentados pelos “socorrões”. A região do Cohatrac, populosa e deslocada do centro da cidade, foi presenteada com um belíssimo e amplo prédio médico-hospitalar. Novinho, espaçoso, grandioso, confortável, bem iluminado e ventilado, com diversos setores climatizados e com área para futura ampliação. Um presente de fim de mandato que ninguém esquece, porque simplesmente não funciona. Como nos outros, não há funcionários suficientes e médicos especialistas de plantão para atender à demanda. Assim, os problemas são exatamente os mesmos, continuamos no zero e com os “socorrões” abarrotados.

Contei a história dos “socorrinhos” ao paciente-fonte deste texto. Ele então me contou que há uma ampliação em andamento no “Socorrão II”, com verba do Governo Federal. Ora, se tem dinheiro para a construção e reforma do prédio, também é bom pensar urgentemente em investir na qualidade do atendimento, no preparo do pessoal e na contração de maior número de funcionários, para que os mesmos sejam dignamente chamados de hospitais de pronto atendimento médico de urgência-emergência ou pronto-socorros. Fica a sugestão, pois novas eleições batem às portas.”

Marcos Baeta Mondego

São Luís, segundona, 17 de agosto de 2009.
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