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Sobre o texto supostamente de uma escritora holandesa que seria uma porrada no complexo de vira-lata do brasileiro

A reposta vem de um brasileiro que mora no Canadá.

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Circula na internet um texto que seguido encontro acidentalmente. É um texto muito compartilhado em redes sociais… do tipo que ninguém sabe de onde veio, e cada um atribui a um autor diferente. Às vezes é foi escrito por uma holandesa; outras, por uma celebridade babaca da televisão.

O texto questiona por que brasileiros falam tão mal de seu país. Ao fim do texto, o suposto autor (ou autora) enumera fatos dos quais brasileiros devem se orgulhar. Pois bem, decidi gastar o meu tempo para comentar os tais fatos.

Antes de começar, preciso deixar claro o seguinte. Eu avalio o Brasil da mesma forma que avalio qualquer país. Não acho que o Brasil é melhor ou pior do que os fatos apenas porque nasci no “país do futebol”. Nenhum país é perfeito, e certamente há países muito piores do que o Brasil—nunca diria o contrário.

Isso, contudo, não apaga a realidade de que o Brasil tem, sim, milhares de problemas seríssimos. Qualquer pessoa realista consegue entender por que cidadãos conscientes falam mal da forma como o país é administrado. Lembre-se: quem acha que tudo está ótimo em uma sociedade cheia de problemas é geralmente alienado ou valoriza aspectos duvidosos de avaliação social. Vamos aos meus comentários (recortei grande parte das afirmações feitas no texto; não discordo de tudo, “apenas” de 10 dos 11 fatos levantados no texto).

1. O Brasil é o único país do hemisfério sul que está participando do Projeto Genoma.

Errado. Austrália também está no projeto. Além disso, pense: onde estão a maior parte dos países do globo? Quantos países desenvolvidos há no hemisfério sul? …

3. Numa pesquisa envolvendo 50 cidades de diversos países, a cidade do Rio de Janeiro foi considerada a mais solidária.

O que é ser solidário nesta pesquisa? Como foi feita…? Dados ou opinião (subjetiva) de indivíduos? Vamos perguntar a um turista: o que você prefere, solidariedade ou segurança? Quem sabe perguntamos à turista americana que recentemente foi estuprada 8 vezes em uma van na “cidade maravilhosa”? Será que ela preferirá, no futuro, ir à “capital solidária” do estado do RJ ou à Suíça, onde o povo será bem menos “simpático” e solidário? Me poupe.

4. Nas eleições de 2000, o sistema do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) estava informatizado em todas as regiões do Brasil, com resultados em menos de 24 horas depois do início das apurações. O modelo chamou a atenção de uma das maiores potências mundiais: os Estados Unidos, onde a apuração dos votos teve que ser refeita várias vezes, atrasando o resultado e colocando em xeque a credibilidade do processo.

Claro… como é linda a democracia! Há duas coisas bastante eficientes que não me surpreendem no Brasil: eleições e Receita Federal. OK, as eleições são informatizadas, as pessoas pressionam botões e voilà! Quem sabe, senhor(a) autor(a) deste texto, você olha para o eleitor brasileiro e para os candidatos brasileiros. Talvez ter um povo instruído e que saiba o que está fazendo seja mais importante do que ter botões e resultados rápidos em eleições; talvez ter candidatos que não sejam Tiriricas da vida seja mais importante, não? Com o nível de corrupção no Brasil, não me surpreende nem um pouco as eleições funcionarem tão bem. Sim, concordo que o sistema de contagem de votos é essencial, mas sinceramente… acho que o Brasil tem mais com que se preocupar, não?

5. Mesmo sendo um país em desenvolvimento, os internautas brasileiros representam uma fatia de 40% do mercado na América Latina.


Genial. Vamos pensar: qual o país mais populoso na América Latina? Se o Brasil não representasse essa fatia… não sei quem representaria. Além disso, classes mais baixas estão tendo mais acesso à informática… Mas lembre-se: consumo, assim como “quantidade de usuários”, não necessariamente representa um índice saudável/ideal. O que essa classe faz na internet talvez seja mais importante do que simplesmente encher bairros pobres de lan houses.

6. No Brasil, há 14 fábricas de veículos instaladas e outras 4 se instalando, enquanto alguns países vizinhos não possuem nenhuma.

Sim, claro. O governo brasileiro se “dobra” para receber grandes empresas. Aparentemente, é ótimo: geração de empregos. Produzem mais e mais carros, que precisam ser vendidos. Aumenta-se o crédito, para que o brasileiro possa cada vez mais comprar carros. Enquanto isso, estradas pioram, número de carros aumenta… resultado: pessoas atoladas em financiamentos em busca do sonho do carro zero; mais acidentes e mortes. Crescimentos não planejados são típicos. Sobre os “países vizinhos”: é óbvio, novamente, que o Brasil terá mais força econômica do que Uruguai, Argentina e Chile… há mais pessoas, mais consumo e mais poder de compra. Isso, repito, não necessariamente é algo bom a longo prazo (ou médio, considerando a atual situação).

7. Das crianças e adolescentes entre 7 a 14 anos, 97,3% estão estudando.

Alguém que faz uma lista de coisas das quais se orgulhar do Brasil jamais deveria incluir aspectos educacionais. Qual a qualidade desse ensino? Como essas crianças estão saindo? O professor está preparado? É valorizado? Há acompanhamento dessas crianças até o ensino médio para que se saiba qual foi o grau de sucesso do ensino básico? Sim, é importante por crianças na escola, mas novamente priorizam-se números, e não qualidade.

8. O mercado de telefones celulares do Brasil é o segundo do mundo, com 650 mil novas habilitações a cada mês.

E daí? Desde quando ter um monte de celulares quer dizer algo? Sério, alguém consegue imaginar uma pessoa dizendo orgulhosamente que o seu país tem milhões de celulares? Se ouço alguém dizer isso, eu imediatamente julgo que essa pessoa é idiota.

9. Telefonia fixa, o país ocupa a quinta posição em número de linhas instaladas.

O que dizer… nada como um povo que tem telefones!

10. Das empresas brasileiras, 6.890 possuem certificado de qualidade ISO-9000, maior número entre os países em desenvolvimento. No México, são apenas 300 empresas e 265 na Argentina.

A questão é: quem reclama do Brasil não reclama porque acha a Argentina melhor, certo? Quem reclama, compara o Brasil com países desenvolvidos que estão fora da América do Sul (ou Latina), embora Argentina e Chile sejam muito melhores em muitos aspectos sociais e educacionais que o Brasil – não vamos nem comparar o grau de leitura destes três países.

11. O Brasil é o segundo maior mercado de jatos e helicópteros executivos.

Sim, há milionários no Brasil. Mas e os outros 99,999% da população…?

O texto segue com algumas perguntas, que me presto a responder aqui:

“Por que vocês têm esse vício de só falar mal do Brasil?”

Não é vício, é consciência da realidade baseada em parâmetros bem definidos.

“1. Por que não se orgulham em dizer que o mercado editorial de livros é maior do que o da Itália, com mais de 50 mil títulos novos a cada ano?”

Vou responder com duas perguntas: 1) Quantos livros o brasileiro lê por ano? 2) Quantos livros brasileiros são importantes internacionalmente?

“2. Que têm o mais moderno sistema bancário do planeta?”

O Brasil? Bom, talvez. Isso explica muita coisa… quem tem taxas abusivas? Quem somente facilita o crédito daqueles que não precisam? Quem está sempre batendo recordes de lucro…? Que coincidência!

“5. Por que não dizem que são hoje a terceira maior democracia do mundo?”

Provavelmente porque não é verdade, mas pode haver outras razões também.

7. Por que não se lembram que o povo brasileiro é um povo hospitaleiro, que se esforça para falar a língua dos turistas, gesticula e não mede esforços para atendê-los bem? Por que não se orgulham de ser um povo que faz piada da própria desgraça e que enfrenta os desgostos sambando.

Por que alguém com um cérebro se orgulharia de um povo que ri da própria desgraça?!? Por favor… Ser hospitaleiro é dispensável (vide violência urbana). Puxar saco de turista talvez seja um sintoma da baixa autoestima brasileira. Mas veja bem: ter baixa autoestima é diferente de ser realista. Pessoas realistas não precisam se fingir de coitadas, mas sim lutar para resolver os problemas à sua volta.

E, finalmente, para fechar com chave de ouro, o texto encerra da seguinte forma:

“É! O Brasil é um país abençoado de fato. Bendito este povo, que possui a magia de unir todas as raças, de todos os credos. Bendito este povo, que sabe entender todos os sotaques. Bendito este povo, que oferece todos os tipos de climas para contentar toda gente. Bendita seja, querida pátria chamada BRASIL!”

Eu não vou nem comentar essa parte, porque me recuso. Mas pense: o que é ser patriota? Por que, afinal, alguém é patriota? Pense bem: o que o seu país faz por você para que você queira amá-lo incondicionalmente? Ter nascido em seu território basta…? Patriotismo incondicional, assim como coragem heroica, é algo que está muito além da burrice se você para para pensar criticamente sobre o assunto (além de ser algo completamente ultrapassado). Não é preciso ser patriota. É preciso ser realista e crítico, para que os problemas sejam enxergados e resolvidos.

Gosto do Brasil, pois foi onde nasci e onde muitas das minhas memórias foram construídas. Sim, há pessoas admiráveis, um clima interessante (para alguns), uma cultura variada e rica. É óbvio que 200 milhões de pessoas não permitem nenhuma generalização. Mas todas as qualidades positivas do Brasil não apagam os problemas de larga escala de um país continental (e muito menos os anulam). É preciso ter uma visão crítica e realista, e não sonhadora-romântica, pois esta nunca mudará nada.

Não tenho o menor interesse de que outras pessoas compartilhem da minha opinião (mas lembre-se: o que comentei neste post não é opinião, é a simples realidade, acessível em qualquer site que contenha dados sobre o Brasil; ou qualquer site de notícias, por mais distorcidas que sejam).

Admiro muito as pessoas que querem fazer de tudo para melhorar o Brasil, e é dessas pessoas que o país precisa (não me incluo aqui). Apenas espero que o Brasil não as espante.

A circulação de textos com esse nível de ingenuidade é apenas mais um demonstrativo daquilo que muitos fingem não ver.

***

Quem tiver a curiosidade de ler o “texto da holandesa”, pesquise na internet. Fácil de achar.

Radialista e Jornalista, Professor de Comunicação e Oratória, Locutor Publicitário e Apresentador de TV
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