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REDE GLOBO X REDE RECORD

O bom e o ruim dessa guerra por audiência e poder

(por Marcos Baeta Mondego)

Um comercial publicitário de 40 anos da Som Livre me deixa com os olhos arregalados quando o vejo na telinha da poderosa e quase inabalável Rede Globo de Televisão, reunindo os melhores nomes da música gospel brasileira. A gravadora que faz parte do conglomerado de empresas da emissora – que nas últimas décadas liderou o ranking de audiência dentre todas as redes de TV do país – comemora o seu 40° aniversário, contando também em seu casting com grandes cantores evangélicos.

Da década de 60 até o início do novo século, a emissora da família Marinho sequer deu ouvido e atenção – ou pelo menos espaços nos telejornais ou na grade de sua programação – aos trabalhos social, espiritual e religioso dos Cristãos evangélicos. É público e notório que católicos, umbandistas e espíritas, por exemplo, até o início dos anos 2000, tomaram de conta dos corações e mentes dos comandantes da mais influente rede de comunicação nacional, com sede no Jardim Botânico carioca. No Brasil, sabe-se que esses grupos religiosos com tendência Cristã – assim se dizem – até pouco tempo eram os maiores e, consequentemente, os mais requisitados para a solução de problemas espirituais pelos quais as pessoas de boa fé atravessavam. Outro dado importante: os estados do Rio de Janeiro, Bahia e Maranhão – não necessariamente nessa ordem – mantém os maiores adeptos da umbanda e do candoblé no país.

Há cerca de 3 meses, enquanto jantava na casa da minha mãe, assisti ao lado dela à uma bela e longa matéria no telejornal de maior audiência do Brasil, o Jornal Nacional, sobre os trabalhos sociais desenvolvidos pelos evangélicos Adventistas. Comentei com ela que estava surpreendido com o conteúdo do horário e material veiculado pela Globo, naquela noite. De imediato, ela comentou que no dia anterior já havia saído também uma grande matéria a respeito do trabalho dos Batistas. E para surpresa maior: não é que no final da matéria o casal de jornalistas-apresentadores William Bonner e Fátima Bernardes prometeu para o dia seguinte outro especial, dessa vez sobre as ações dos Assembleianos?!

Sem sombra de dúvidas, se passarmos a história a limpo e nos enfiarmos em livros, jornais e revistas para pesquisar o passado da comunicação nacional, a Globo é a rede de TV, rádio, revista, jornal, gravadora e distribuidora de produções musicais que mais se adapta às situações adversas no país. Ao longo dos anos, manteve o seu posicionamento conforme os próprios interesses para não perder espaço, poder e influência. Para não perder força!

A emissora faz escola, principalmente na política e entre os políticos – os seus maiores aliados -, encravando neles a melhor forma de si dar bem no meio em que atua (ou não!), sem pudor nem escrúpulo. Só para refletir, voltemos um pouco no passado próximo, quando “a toda poderosa” preferiu Collor a Lula, ajudando a decidir a eleição à Presidência da República no jogo sujo do jornalismo antiético, parcial e autoritário. Por sorte ou não, ainda bem que todos os envolvidos naquela época estão juntos hoje, buscando e defendendo os mesmos valores e interesses.

Os evangélicos costumam bradar todo o santo dia, em orações coletivas nas alturas, que “Jesus tem poder”. Eles crêem, porém a Rede Globo e a Som Livre levaram 40 anos ou mais para dar atenção a esse clamor e para perceber que perderam espaço, audiência e, principalmente, poder. Agora, não em uma atitude de fé dos seus magnatas diretores, mas por reconhecer a ascendente força religiosa e para fazer frente ao grupo evangélico da Igreja Universal do Reino de Deus, que repentinamente tomou o comando de uma antiga rede de comunicação de TV do país, a Record.

Particularmente, não creio que a IURD busque em Jesus Cristo todo a força e poder que tenha e mereça. Essa é a minha opinião há tempos – motivo também levantado para abertura de processo criminal que o Ministério Público move contra os comandantes da igreja que usa a fé das pessoas para se tornar a maior e mais influente entidade religiosa do Brasil. O crescimento é tanto e o dinheiro arrecadado maior, que os controladores da Igreja Universal juntaram em tão pouco tempo um patrimônio exorbitante e criaram uma frente à amedrontada Rede Globo. É tão assustador que, mesmo de longe, também me sinto atingido na minha crença e fé em Deus.

A Rede Record conquistou tanto espaço nos últimos anos que a Rede Globo desenterrou documentos e processos arquivados contra o poderoso líder religioso “evangélico” bispo Edir Macedo, com medo de perder mais ainda o seu poder e controle da comunicação nacional. Em contra partida, na tentativa de dar explicações à sociedade religiosa e com o temor de ter atingido o controle espiritual que tem sobre milhares de brasileiros, Macedo foi rápido, moveu o seu telejornalismo e escancarou na sua emissora um documentário no programa “Repórter Record”, de 16/08/2009, em que era o protagonista. Assisti do início ao fim – assim como também fiz com as matérias veiculadas nas outras emissoras, sobre o indiciamento criminal dos diretores da IURD/Record.

Dentre outras coisas, o que mais me chamou a atenção foi o finalzinho da entrevista do bispo no documentário, quando fala à repórter que o seu objetivo está traçado e, em primeiro plano, a ambição de elevar a Rede Record à liderança no ranking das emissoras de TV brasileiras. Quem falou isso de viva-voz, em rede nacional de televisão – e que está gravado para a posteridade – foi o próprio Edir Macedo. O empresário ou o bispo?

Logo na seqüência, o líder religioso colocou como a sua segunda missão no mundo elevar e levar o Cristianismo aos países orientais, árabes e mulçumanos. Não citou os países ateus e judeus – com esses últimos tenho a absoluta certeza que a briga seria feia, pois é um povo religioso que historicamente não deixa escapar facilmente as moedas do bolso. Agora, respondendo à pergunta do parágrafo anterior com uma nova pergunta: não estariam invertidas as missões do bispo Edir Macedo? Ou pelo menos a ordem de suas colocações e intenções na terra?

Lembrando: quem segue a Jesus Cristo deve esquecer ou pelo menos deixar de lado boa parte do que está escrito no Antigo Testamento bíblico, quando os ensinamentos tendem para o “olho por olho e dente por dente”. Lá, são comuns as grandes batalhas, a briga por terra e espaço, a busca por dinheiro e vida digna, a guerra de grandes contra pequenos, a alma e a honra lavadas com muito sangue – apesar da busca e muita fé em Deus.

No Novo Testamento, onde Jesus Cristo é o protagonista, a coisa é diferente. São ensinamentos que definitivamente mudaram o mundo moderno, formaram nações e uniram povos. São leis religiosas do bem, do respeito, da ética, do contra-rancor e que nos levam a dar os dois lados da cara à tapa. São normas Cristãs que nos ensinam a lealdade com todos os nossos irmãos de fé. Aprendemos com Ele até a dividir a comida e a bebida. E lá está escrito, em várias passagens bíblicas, que aqui relembro do meu modo: “levai a minha palavra de amor e compreensão a todos, sem restrição e medo, com toda a fé e poder em Deus”. Resumindo: isso é ser Cristão; é a verdade deixada por Jesus ao ser humano que crê em Deus e que Nele tem a sua base espiritual-religiosa. Dá entender onde quero chegar?

Nessa briga por poder e pela audiência entre grandes grupos de comunicação de TV brasileiros, o que menos importa é a fé em Jesus. Um vê ameaçada a sua liderança e busca a parceria daqueles Cristãos que sequer no passado lhes foi dado espaço para divulgar os ensinamentos de Deus. O outro trabalha somente a auto-estima dos seus seguidores, sem sequer abrir a Bíblia Sagrada nos cultos e programas religiosos de televisão para repassar aos homens de boa fé aquilo que Jesus dissera, ensinara e pedira. É a pura briga por muito dinheiro! É a ganância incessante por riqueza e poder! A fé não nos ensina a ser cegos, mas sim, a abrir bem os olhos para a vida e para aqueles que somente nos levam ao mau.

Nessa história toda e como mero expectador, acho legal ter perdido e perceber que muitos também perderam o hábito de ligar e desligar a TV somente em um canal. Muitos empregos foram criados e outras oportunidades foram abertas, principalmente a diversos profissionais de comunicação. Percebe-se o tanto e quanto há caras novas na Globo e também, estrategicamente, como a Record faz questão de confundir a cabeça dos telespectadores com as suas contratações, tanto no jornalismo como na teledramaturgia.

Assim, muita coisa boa eletrônica televisiva foi criada e outras tantas ruins produzidas, na busca única e sem precedentes pelo poder e audiência. Confesso que um dia assisti ao filme “Jogos Mortais” na Record e na seqüência veio uma dupla de pastores da Igreja Universal do Reino de Deus para adentrar a madrugada com os seus bate-papos religiosos de auto-ajuda. Que doideira!

Doideira também é ver que a Globo está desesperada – quem diria? E no troca-troca de farpas, rancores e tapas, na base do “olho por olho e dente por dente”, a Globo compra enlatados pacotes internacionais de programas e revende às outras redes de emissoras menos abastadas. Por ter perdido a transmissão dos próximos Jogos Olímpicos para Edir Macedo, os irmãos Marinho foram ágeis e, por exemplo, adquiriram a transmissão da Copa dos Campeões da Europa de Futebol da UEFA e repassaram à Rede Bandeirantes – deixando a Record no vácuo e os seus fiéis telespectadores a ver navios.

No mais, é esperar para assistir aos próximos capítulos dessa briga que promete ir a muitos rounds. E o bom de tudo é saber que, com ela, podemos distinguir o bom do ruim na programação das emissoras brasileiras. Até o Silvio Santos, craque do entretenimento eletrônico, estava acomodado e pouco investia em suas produções nos últimos tempos. Pois a sua esposa, Íris Abravanel, foi buscar na fé em Deus a força necessária para a retomada da liderança ou da vice-liderança entre as TVs nacionais, abrindo a tempo os olhos do empresário do SBT, mesmo contra a sua vontade.

E pelo andar e barulho da carruagem, não será surpresa se o aposentado locutor Cid Moreira não ressurgir na Record apresentando um programa religioso de cases de sucessos de seguidores da IURD, contando histórias de novos e prósperos empresários. Ou já pensaram no padre-cantor Fábio de Melo interpretando os grandes sucessos católicos e evangélicos, em dueto com o senador, cantor e bispo da Igreja Universal Marcelo Crivela? Nessa altura do campeonato, não é difícil novas parcerias no ar. Aguardem!

Marcos Baeta Mondego
Aniversário de São Luís, 8 de setembro de 2009.

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