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OS USURPADORES DO BRASIL E OS POLITICAMENTE CORRETOS


A quem recorrer em um país que não é sério?!
(por Marcos Baeta Mondego)

“Após vários acontecimentos estapafúrdios da política brasileira, soube nesta segunda-feira que uma pessoa próxima – conhecida minha – estava ansiosa e salientava veementemente a sua insatisfação com o não recebimento da fatura do cartão de crédito, atrasado há quase 20 dias, a exemplo do que ocorrera na cobrança do mês anterior – segundo ela. Reclamava muito, pois não entendia porque até aquele momento, ainda não havia chegado. No mês passado, chegou a pagar todas as multas e juros devidos, daquilo que não tinha responsabilidade… Não tinha responsabilidade?! Desde quando?!

No Brasil, tornou-se hábito as pessoas se “fingirem de mortos”. Há bem pouco tempo, o presidente Lula chegou a convencer o povo brasileiro que nada sabia sobre os desvios de verbas feitos para o caixa 2 do seu partido político. Para chegar ao milésimo gol, o craque-artilheiro Romário, aos 40 anos de idade, se fingia de morto na área para fazer os zagueiros esquecê-lo. Agora, recentemente, o atual presidente do Senado, José Sarney, disse também que não tinha conhecimento das irregularidades que ele mesmo teria cometido. Então, porque não esquecer de ligar para o 0800 (de graça) ou mesmo enviar um e-mail (ágil, fácil e eficiente) à administradora de cartões de crédito para solicitar o envio da fatura em tempo hábil para pagamento ou mesmo comunicar que a cobrança ainda não chegara?

No mês passado, o presidente do Brasil, do PT, tentou ser fiel ao seu fiel escudeiro presidente do Senado, do PMDB, ao defendê-lo valorizando a sua biografia política. Ao perceber o ato falho público e alertado por assessores de imagem, Lula voltou atrás na semana passada, repassando a responsabilidade a quem elegeu os senadores e o presidente do Senado. Ainda na mesma semana, o bate-boca entre os senadores Tasso Jereissati, do PSDB, e Renan Calheiros, do PMDB, deixou bem claro quem verdadeiramente são os nossos representantes políticos – foram objetivos nas acusações e demonstraram o tanto e quanto um conhece bem o outro. Falar a verdade, de viva-voz, ao vivo para todo o Brasil, desde quando é quebra de decoro parlamentar?!

Nesse vai-e-vem de interesses pessoas, de muita má fé neste país que definitivamente não é sério, os políticos conseguem revelar na cara-dura que tudo isso não passa de “dinâmica da política”. No final dos anos 80, após uma disputa acirrada com Luís Inácio Lula da Silva, o governador de Alagoas Fernando Collor elegeu-se presidente da nação em uma campanha eleitoral memorável. Ao assumir, Collor de Melo foi ríspido e taxativo sobre as qualidades do seu antecessor, presidente José Sarney. Segundo o ex-governador de Pernambuco e senador do PMDB Jarbas Vasconcelos, Fernando Collor chegou a chamar Sarney de ladrão! Na semana passada, o mesmo Collor de Melo teve uma discussão áspera com o senador gaúcho Pedro Simon – também do PMDB e não aliado de Lula-Sarney – assumindo definitivamente a liderança da tropa de choque do presidente do Senado. Mais uma vez a afirmativa: um conhece bem o outro!

Seria melhor ficar calado diante dos últimos acontecimentos porque é politicamente correto?! Segundo alguns convidados do programa “MTV Debate”, capitaneado pelo cantor e compositor Lobão, parece que sim! Entendi assim, pois o assunto debatido de forma genérica relacionava tópicos específicos e temas pertinentes aos negros, brancos, portugueses, gays, políticos, religiões, animais, loiras, enfim… No final do programa, ficou no ar que não fazer a piada é legal, é melhor, é moral, é reverente etc. Fingir que não há discriminação no Brasil e se “fingir de morto”, então é politicamente correto. Fingir que nada demais acontece na política nacional e no Senado Federal; que a dupla de companheiros Lula-Sarney nada sabe sobre nada; que a fatura do cartão de crédito ainda não chegou e que isso não é problema de quem paga, tudo não passa de ações politicamente corretas.

Tem um prefeito piauiense – acusado de tentativa de estupro a uma criança de 8 anos – que na CPI da Prostituição Infantil preferiu ficar calado às acusações e perguntas a ele direcionadas pelos deputados. Isso é uma prerrogativa constitucional legal que levaram muitas pessoas a se calarem diante da ilegalidade. Processar, acusar e buscar direitos para que?!

Também tem a história do juiz de uma cidade amapaense que “fazia a festa” com a criançada. Ele é acusado de vários crimes contra menores e ainda se dá ao direito de nada declarar, porque o processo corre em “segredo de justiça” – manhosamente, essa norma processual o meritíssimo respeita direitinho! Aliás, ele sabe bem o “caminho das pedras”, conhece melhor ainda as entrelinhas das leis e o peso da toga que usa todo o dia – é como vestir a camisa da “seleção canarinho”.

A propósito, lembrei nesse instante: teve um fato que aconteceu comigo há alguns anos, quando um grupo de menores de rua quebrou a janela do meu veículo na tentativa de roubá-lo. Cheguei na hora. Busquei as formas corretas para resolver o problema: chamei a polícia, pegamos os meninos e levamos para a delegacia. No caminho, os policiais me disseram que não daria em nada. Na delegacia, me disseram que os meninos seriam logo liberados, pela idade deles. Enfim, fiquei no prejuízo mesmo…

Passaram alguns dias e “os moleques” tentaram novamente o mesmo crime, encarando a mim e a alguns amigos. Eles fugiram, e nós os seguimos. Ao encontrá-los, estavam em companhia das mães e de um promotor de justiça de uma cidade maranhense. Conversando com o doutor-promotor, ele parecia embriagado. Com um copo na mão, sem camisa e só de bermuda, saiu em defesa dos menores (na frente deles!), argumentando que é um problema social sem solução, que as pessoas precisam fazer cada um a sua parte e que precisamos dar as mãos para ajudar os filhos da “cumade” dele. Pensando assim, já fiz a minha parte. Hoje dou risadas, mas na época fiquei “puto”! É tanta barbárie hilariante…

Quando falo de algum fato dos políticos – por exemplo – a minha intenção não é fazer campanha contra ninguém. São acontecimentos públicos e notórios que nos movem, remexem as mentes, juntam as idéias e saltitam os dedos nos teclados.

O senador Pedro Simon lembrou bem a história do senador Romero Jucá, líder do Governo Lula, outrora também líder do Governo FHC. Simon disse que o errado não é o Jucá, mas sim o Lula e o PT, que fizeram tanta oposição traquina ao PSDB-PFL e hoje seguem os mesmos passos do passado, por isso tem o mesmo líder. E outra: na tentativa de salvar Sarney na presidência do Senado, a tropa de choque do PMDB-PT fez tanta chantagem à oposição, relembrando fatos e atos ilegais e iguais aos de hoje, como se dissessem: “pô, galera, naquela época a gangue de vocês fez e aconteceu e nós ficamos calados; deixa agora a gente agir, senão botamos a boca no trombone!” Assim, foram buscar documentos, montaram dossiês e tudo isso pareceu uma ducha de água fria na cara da oposição, que nesse início de semana já parece cabisbaixa… Indica que engoliram mesmo, mestre Collor!

Ah, uma jovem conhecida minha – que nas férias foi visitar a família do noivo em Formosa, Minas Gerais – ao ser apresentada como maranhense, veio logo a piadinha: “hum, terra do Sarney, aquele!” Aproveito a deixa para informar aos brasileiros e brasileiras que, como está bem transparente neste texto e nas inúmeras matérias e fatos publicados na imprensa nacional, este imenso Brasil é composto de vários estados e de outras piadas e discriminações. O Sarney é maranhense, senador do Amapá, mas bem que poderia ter nascido em Minas Gerais – lá mesmo em Formosa – que não teria diferença alguma. Afinal, tem muito mineiro envolvido em escândalos nacionais também. Como o… bom, aí já é conteúdo para outra história – talvez idêntica.

Para passar a régua e fechar a conta, muita gente acha que quando explicito minhas opiniões por aqui, estou em momento de fúria e indignação. Não, longe disso, muita gente! Nos últimos dias sorri bastante ao assistir às palhaçadas do circo político brasileiro. E ao relembrar cada fato narrado e escrever o presente dito cujo, estava às gargalhadas, pois não sabia como encerrá-lo e não tinha noção a quem recorrer em um país que não é sério. Porém, graças a Deus, eis que surge uma luz irreverente: começa o programa humorístico CQC, da Band. Então, é hora de parar! Até porque não devemos achar que a coisa é só divertimento, lazer, alegria e piadas – o negócio é sério, meu nego! Até mais ver…”

Marcos Baeta Mondego
São Luís, segundona, 10 de agosto de 2009.
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