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‘O policial tem que ser um espelho para a sociedade’

Adriano Martins Costa

Da equipe de O Estado

Católico, torcedor do Sampaio Corrêa e do Fluminense, pai de oito filhos, avô, casado. O comandante do Batalhão de Choque da Polícia Militar do Maranhão, Raimundo Nonato Santos Sá, se diz um paizão, mas daqueles pais bestas que deixam de comprar uma roupa para si próprio e se rendem ao pedido de um filho. Mas também é um pai das antigas, que faz questão que cada um dos seus rebentos, mesmo o mais velho com 28 anos, tome a bênção.

No comando dos 243 homens que compõem o Batalhão de Choque, o tenente-coronel Sá não muda o seu modo de agir e seu temperamento, que aprendeu e adquiriu na infância: dedicação, compromisso, uma honestidade sem freios e um temperamento explosivo terminam por moldar sua trajetória de 27 anos dentro da PM, desde a época em que era soldado. “Eu sou muito cobrador e acho que para você cobrar tem que dar o exemplo. Eu não posso dizer para o policial que ele tem que estar às 5h da manhã, se eu chegar às 9h. Quem tem que chegar às 4h50 sou eu”, exemplifica.

Carreira – Nascido em São Luís, Sá iniciou sua carreira militar em 1985, aos 19 anos, como marinheiro na base Almirante Ari Parreira, no Rio Grande do Norte. Em 1987, foi aprovado no concurso público e frequentou o Curso de Formação de Soldados da PM. Um ano depois, passou no Curso de Formação de Sargentos e em 1992 começou a frequentar o Curso de Formação de Oficiais (CFO). Formado em 1995, foi declarado aspirante a oficial PM, um ano depois já era promovido a 2° tenente e em 1998 já era 1° tenente. Promovido capitão em 2005, frequentou o Curso de Aperfeiçoamento de Oficiais (CAO), em Alagoas.

Em 2009, se tornou major e assumiu o comando do 8° Batalhão, novamente promovido em 2012, dessa vez a tenente-coronel, passou a ser o comandante do Batalhão de Choque em Janeiro de 2013, onde se encontra no momento. “Se você entra na instituição direto pela academia [CFO], você deixa para trás uma série de dificuldades que vão te ajudar mais na frente. Ser soldado, sargento e depois oficial serviu quando eu cheguei na academia”.

Para o tenente-coronel, essa experiência ajuda no trato que ele tem com seus subordinados, que ele diz que são como seus filhos. Com base nisso, ele afirma que faz o que for possível para que nada aconteça com nenhum deles, mas ressalta: se um dos seus filhos, porventura, fizer alguma coisa errada, aí entra em ação o que ele chama de conforto pedagógico, que dentro da instituição da Polícia Militar é o Regulamento Disciplinar do Exército (RDE). “Todo o policial tem que ser um espelho para sociedade. Agora só posso ser um espelho se tiver uma conduta ilibada. Se não for assim de nada adianta. Então, tanto dentro de serviço, quanto fora de serviço, o policial tem que dar exemplo, dentro do possível, porque nós não somos Deus, e Deus é que não tem defeito”, afirma.

Falta valorização – Em 27 anos de Polícia Militar, o tenente-coronel Sá se ressente com a constante falta de valorização que os policiais vêm tendo, principalmente no reconhecimento das suas ações, por parte da população e das autoridades. Sá explica que, enquanto todos se divertem, a PM está lá, cumprindo seu dever, mas ninguém se importa, porque os policiais estão fazendo só a obrigação deles.

“Eu costumo dizer para os meninos novos que o Réveillon deles é o dia em que ele vai estar de folga. A PM diz que nós vamos ter que abdicar de muita coisa. Durante o Carnaval, por exemplo, todo mundo se planeja de forma a brincar. Nós também nos planejamos, mas para trabalhar”, comenta.

“O medo é uma ferramenta boa para que a gente possa permanecer vivo”, acredita. De acordo com o tenente-coronel Sá, o policial não deve se eximir do medo, já que a partir do momento em que isso ocorre, ele passa a ser irresponsável. E já foram várias as situações em que tanto a vida do comandante, quanto a de seus comandados foram postas em risco. Ameaças também são constantes. Mesmo assim, a responsabilidade que ele tem com a tropa e com seus familiares o ajuda a seguir.

Comandante quer diálogo com a sociedade

No senso comum, o Batalhão de Choque da Polícia Militar é chamado para resolver a situação quando a conversa não resolve. Eles já chegam com armas, disparando e batendo. Contudo, o tenente-coronel Sá diz que vem tentando implementar uma nova atitude dentro de seu comando, de mais diálogo com a população.

“Hoje, o policial tem uma nova postura, um novo comportamento, vê a sociedade de forma diferente. Muitos foram ensinados por oficiais do exército, que nos diziam que todo civil é inimigo e na verdade não é assim. O teu inimigo é o bandido. E isso é o que o PM tem aprendido: o inimigo da polícia é todo aquele que contraria o dispositivo legal. Esse é que a gente tem que trabalhar com rigor”, ressalta.

A orientação nas ações com a comunidade, por exemplo, é que antes de qualquer intervenção, o Choque converse com os envolvidos. “Mas as pessoas, a maioria delas, não aceita. Querem fazer manifestações, mas não entendem a situação dos outros. Simplesmente, as pessoas fecham as vias e ambulâncias não passam, ônibus não passam. Observem quantas pessoas que podem morrer por conta de manifestações, pessoas que tiveram filhos dentro do carro, alguém que passou o ano procurando o emprego, e no primeiro dia de trabalho fica preso numa manifestação. Então, querem exigir os seus direitos, e não garantem o direito dos outros?”, indaga.

RAIO-X

Nome completo:

Raimundo Nonato Santos Sá

PROFISSÃO

Oficial da Polícia Militar

QUALIDADE

Honestidade

DEFEITO

Ter a cabeça quente

ALEGRIA

Família

TRISTEZA

Desigualdade e pobreza no país

SAUDADE

Do tempo de criança

PLANOS

Contribuir para a melhoria da PM e galgar postos mais altos dentro da corporação

 

 

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