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Artigo: Um pouco lucidez

Imparcial – O atual momento pelo qual passa o Maranhão suscita questões de toda ordem. Uma das que mais me
chama atenção – não sem muita tristeza – é o status das vidas privadas dependentes do espaço público. Parte da minha geração se vê dependente de uma mesada pública, de um cargo de empréstimo, de um salário de dádiva. A palavra elite ficou longe da bem aventurança nos negócios privados ou da construção de conhecimento acumulado às custas de estudo, leitura, discussão e raciocínio. Vejo um conjunto de sobrenomes que não se afirmou intelectualmente, não estudou o bastante, não adquiriu cultura diferenciada, não foi bem sucedido empresarialmente e, agora, não tem condições de sustentar seu modo de vida, sozinho. Porém, a rotina lhe afirma o título de elite a partir do sobrenome e dos acesso a cargos públicos. Retiro da análise o item coluna social porque a internet desconstruiu qualquer Ibraim Sued, ludovicense ou tupiniquim.

O país é República desde 1889, mas nosso espírito ainda é da aristocracia, e pessoas que queremos bem e por quem temos ânsias e ganas de ajudar e colaborar cresceram na dependência dos negócios públicos, quer ganhando empregos sem concurso e sem formação suficiente, quer sendo beneficiárias de negócios privados. – obviamente construídos com o objetivo de sustentar uns poucos.
Estas perplexidades de infinitas grandezas, descambam das prateleiras escondidas, abandonam as suas condições de absurdos e demonstram que a nossa sociedade tem vícios torpes. Elas se tornaram tão comuns que a ausência desse protecionismo gera ofensa, tristeza e mágoa em alguns que não entendem que Duques, Barões e Marqueses já não mais existem.

Não há muito o que fazer com aqueles homens e mulheres das gerações que chegaram até a minha e que representam a moribunda aristocracia das dependências estruturais. Mas há muito a fazer com as gerações futuras.
Que tal sermos menos coniventes com o ócio de nossos filhos? Com a falta de estudo? Com os mimos tolos? Com as fofices e extravagâncias? Que tal lembrarmos que há o certo e o errado, e o errado não virou o certo só por que os nossos estão errando?

Talvez seja pedagógico dizermos sempre que depende deles se acaso serão importantes cientistas, empresários ou filósofos, ou humildes vendedores de cachorro-quente, porque só o esforço deles constrói!
O maior legado da minha geração para a dos meus filhos talvez devesse ser lhes fazer pensar sobre o mundo. Mostrar que é necessário duvidar, criticar, analisar, discutir e agir sabendo o porquê das coisas, e com base nas suas próprias opiniões.

É preciso que as gerações que estão por vir entendam que não são piores ou melhores do que ninguém. Pobres e ricos, homens e mulheres somos todos iguais.

Não sairemos da aristocracia com padrões subsaarianos se não mergulharmos na meritocracia, no fim do jeitinho, no abandono da dependência estatal e dos muitos favores. Precisamos chegar na república com igualdade de pontos de partida e na regra da não proteção, para além da lei. O vitorinismo segue nos fazendo mal com a máxima adaptável: “aos amigos tudo, aos inimigos os rigores dos concursos e das licitações”!
Precisamos de uma geração que avance para o mundo, não de uma geração que reze por uma licitação fraudada, uma assessoria gratuita ou um salário na EMAP.

Ney Bello. Pós Doutor. Membro da AML. Desembargador Federal.

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